De 1 centavo a 1k/mês em 1 ano: construindo renda passiva com ebooks

Renda passiva com ebooks
Renda passiva com ebooks

Tem algum tempo que não tenho escrito sobre empreendedorismo aqui no blog, o que não quer dizer que não esteja empreendendo. Embora minha ocupação principal seja como Especialista de Sistemas no banco Agiplan, ainda mantenho outros hobbies que geram renda como atuar como Evangelista Técnico para a Umbler e manter este blog em funcionamento. Mas o maior e mais interessante de todos os hobbies é o de criar fontes de renda passiva e é disso que venho falar hoje.

Faz alguns anos desde que li o livro do Tim Ferriss pela primeira vez (sim, eu já li várias vezes) e milhares de reais ganhos depois, sinto-me à vontade para escrever sobre como outras pessoas podem gerar mecanismos de renda passiva ou até mesmo lifestyle businesses completos. Hoje vou falar de como construí uma fonte de renda passiva de aproximadamente R$1.000/mês ao longo de um ano empreendendo com ebooks, tendo começado do zero.

Sim, do zero. Eu nunca havia escrito um livro antes, minha experiência era apenas como tradutor de livros de RPG e programação.

E não foi fácil, no primeiro mês ganhei apenas um centavo. No mês que escrevo este artigo, recebi pela primeira vez mais de um mil reais com meus ebooks que são vendidos no site da Amazon.

Passo 1: escreva o ebook

O primeiro passo obviamente é escrever o ebook. Eu uso o Google Docs para isso. Para fazer a capa eu uso as dicas deste artigo aqui.

Ah, você não sabe sobre o quê escrever? Ignore qualquer dica que tenha lido na Internet sobre nichos que mais vendem, já fiz isso e não deu certo. Escreva sobre algo que você entende bem e goste. Ponto final. Eu escrevo sobre programação, algo que faço e gosto de fazer há 11 anos.

Tamanho do livro? O formato do Kindle é o de livreto (eu recomendo vender na Amazon, por isso que menciono o Kindle aqui). Umas 60 páginas do Google Docs devem gerar em torno de 100 páginas do Kindle, um bom tamanho de livro para ser vendido na faixa de R$5,99 a R$9,99, dependendo da qualidade final do conteúdo.

Diagramação? Esqueça. Apenas escreva, use a formatação de título corretamente e crie o índice automático. Não use muitas imagens nem tabelas, ficam ruins no Kindle e encarecem os seus custos de distribuição (a Amazon desconta de você os MB de download do livro).

Não sabe como estrutura um livro? Dê uma olhada nos meus ou de outros autores ainda mais bem sucedidos e copie na cara dura. Estruturas de livros não são protegidas por direitos autorais. O conteúdo sim.

Não consegue escrever um livro do início ao fim? Escreva um capítulo de cada vez, como se fosse um microlivro. Escreva eles em qualquer ordem, sobre qualquer tópico dentro do assunto central, e só depois junte tudo, escreva os textos de “amarração” entre os capítulos e está pronto.

Passo 2: lance o ebook

Cadastre-se gratuitamente como autor independente no Kindle Direct Publishing da Amazon, que é a plataforma para vender ebooks na maior loja virtual do mundo.

Antes de lançar o ebook, lance a pré-venda dele. Isso te dará um deadline para terminar o livro e uma obrigação com seus leitores. A pré-venda pode durar até 3 meses e, caso você não lance o livro até a data, a Amazon te bloqueia por um ano como autor. Isso te ajudará a dar um sentimento de urgência e terminar de uma vez.

Pré-vendas não vendem muito quando não se é um autor famoso, meu recorde foi 12 unidades para o livro de Node.js, mas te ajudam psicologicamente a terminar o livro. Fiz isso em meus últimos lançamentos e deu muito certo.

No KDP você vai criar um novo livro, dar nome a ele, subir a sua capa, seu “manuscrito” (eu subo em docx) e definir o preço. Para pegar a maior comissão, que é 70%, você deve ter um preço mínimo de R$5,99 e inscrever seu livro no Kindle Unlimited, o que permite que os assinantes desse plano leiam seu livro “gratuitamente” e você receba por página lida.

Eu tenho uma regra de precificação bem simples, construída ao longo de um ano testando diferentes preços: livros de +-100 páginas eu cobro entre R$5,99 e R$9,99, dependendo do quão “exclusiva” é a informação que coloquei dentro do livro. Livros com mais de 200 páginas eu cobro R$14,99, o valor máximo que me permitiu vendas constantes.

Quando o ebook estiver pronto, suba a versão final e sinalize que ele está pronto. O manuscrito irá para uma revisão e sendo constatado que não há violações de direitos autorais ou nada que fira os termos de uso do KDP, ele estará disponível na loja em até 72h, embora tenha demorado sempre 24h para mim.

Passo 3: divulgue o ebook

Dizer que seu trabalho terminou ao lançar o ebook é mentira. Agora você tem de vendê-lo.

Ah você achou que a Amazon ia vender sozinha pra você? Pois é, ela até faz isso. Pra você e para milhares de outros autores independentes. Então para se destacar na multidão, você mesmo deve fazer seu próprio marketing.

Para isso eu uso meu blog, minhas redes sociais, uma mailing list e minha imagem pessoal, divulgando meu trabalho em eventos. Procuro fazer um marketing diferenciado, oferecendo conteúdos que interessem minha audiência e que motive-os a comprarem meus livros. Sugiro que faça o mesmo.

É importante que você entenda quais os mecanismos que mais lhe geram vendas, para que possa investir mais tempo neles. Existem plugins para WordPress, como o Pretty Links, que permitem que você rastreie links clicados pelos seus visitantes. Existem SaaS como o Mailmunch que permitem a você oferecer amostras grátis do seu ebook em troca do email da pessoa. Com esses emails coletados, você monta a sua mailing list.

Uma mailing list é importante para que você possa fazer marketing em cima dos seus leads, oferecer a versão completa do livro para quem baixou a gratuita, etc. Você pode fazer isso gratuitamente usando os recursos gratuitos de marketing automation do Mailchimp (até 2000 leads).

Caso você não tenha um blog, ao menos tente criar uma landing page para seu livro, eu recomendo o Instapage para isso pelos 30 dias grátis e facilidade de uso. Essa foi a estratégia que usei quando lancei o livro de Pokemon Go, mas essa é outras história e não vou falar dela aqui.

Para gerar tráfego para essa landing page ou mesmo pro seu blog, você pode divulgar em grupos de redes sociais do mesmo assunto ou gerar tráfego pago usando Google Adwords e Facebook Ads. Eu uso o primeiro e dá pra ter resultados muito legais com pouco dinheiro. Como eu tenho uma taxa de conversão de venda em torno de 10%, defino um CPC de 1% do valor do meu livro para atrair visitantes que tenham interesse por aquele assunto e assim garantir vendas e uma boa margem de lucro líquido.

Eu não sou exatamente um profissional de marketing, embora tenha estudado bastante inbound marketing quando trabalhava em uma startup de marketing automation, entre 2015 e 2016. Consigo gerar algumas vendas de livro por dia com estas técnicas, o que geram os resultados que você pode ver no relatório de pagamentos que ilustrou o início desse post ou o relatório de vendas abaixo.

Relatório de Vendas
Relatório de Vendas

O pico no dia 02/10 que você vê no gráfico foi um dia de promoção na Amazon. De tempos em tempos eles convidam autores para incluir seus títulos em promoções do site onde reduzem drasticamente o valor do seu livro (e sua comissão cai junto), mas vendem um volume muito acima do normal que compensa. Eu sempre aceito e nunca me arrependo, às vezes vendo o total de um mês em apenas um dia.

Passo 4: repita o processo

Gerar renda passiva em grande quantidade com ebooks leva tempo e igualmente um número de ebooks. Mesmo J.K. Rowling (Harry Potter), que é a autora mais rica da história, precisou de 7 livros para alcançar esta façanha. Provavelmente se tivesse lançado apenas o primeiro, apesar de bem escrito, não teria conseguido tanto dinheiro.

Assim que lançar seu primeiro livro, monitore os resultados das vendas, trabalhe para melhorar os pontos nos quais sua audiência “reclama” ou solicita (recomendo dentro do livro colocar informações para contato) e depois de um tempo, já pense no próximo.

O ideal é que haja sinergias entre seus livros, para conseguir fazer cross-selling (venda de produtos complementares). Por exemplo, meu livro de Scrum é complementar aos livros de programação. Já o novo livro que estou trabalhando, de MongoDB, é complementar ao livro de Node.js.

Assim, você consegue vender mais produtos para os mesmos clientes que já cativou com o primeiro lançamento. Isto considerando que você tenha escrito um bom ebook. Eu tenho vários ebooks lançados mas apenas 3 realmente geram renda, os demais não deram certo. Não é impossível, mas é difícil chegar na marca de 1k/mês de receita com apenas um ebook.

A dica aqui é usar o mesmo ciclo construir-medir-aprender do Lean Startup. Eu tive a “sorte” de conseguir gerar um volume legal de vendas logo com meu primeiro ebook (+-R$300/mês), assim que aprendi como divulgá-lo. Esse aprendizado eu levei adiante comigo nos demais projetos e diminuí bastante o tempo para ter retorno sobre o investimento realizado (ROI).

A parte boa é: escrever o primeiro é muito mais difícil que os demais. Então não se acovarde e comece hoje mesmo!

Bônus: Otimizando os ganhos

Reunindo algumas dicas aleatórias para otimizar ganhos com ebooks:

  • associe-se no programa de afiliados da Amazon para vender seus próprios ebooks e ganhar uma comissão adicional de 9% (chegando a 79% de comissão);
  • dentro de seu ebook, indique seus outros ebooks;
  • dentro do seu ebook, atraia seu leitor para suas redes sociais e blog, principalmente visando capturar o email dele;
  • crie campanhas automatizadas de marketing para engajar seus leads e clientes;
  • forneça uma versão gratuita ou use o preview do seu livro na Amazon como um chamariz para as pessoas conhecerem seu trabalho sem ter de pagar;
  • se não tem um blog ou tem mas quer aumentar sua exposição na internet, escreva em blogs de terceiros como o iMasters;
  • crie sua página de autor na Amazon;
  • inscreva seus livros no Kindle Unlimited, assim, além das vendas, você ganha alguns centavos por cada página lida dos associados no programa;
  • peça reviews dos seus livros, quanto mais reviews e vendas, mais alto ele fica nas posições de destaque na Amazon e consequentemente terá mais vendas;
  • qualidade não é quantidade, foque-se em escrever um pequeno e bom livro e você vai vender bem;

Até a próxima!

Conselhos para quem quer empreender full-time

Palestrando no TDC 2016
Palestrando no TDC 2016

Esse post é focado em organizar em um só lugar algumas dicas de minha autoria para quem quer empreender full-time. Basicamente parte das minhas experiências pessoais com alguns toques do que eu faria de diferente hoje. Saí do meu emprego em 2012 para empreender e durante três anos toquei meu próprio negócio até que decidi voltar ao mercado de trabalho pois minha startup, apesar de ter faturamento, não decolou. Apesar disso, consegui viver bem durante este tempo, sem luxos ou firulas, mas bem, sem dívida alguma, sem precisar vender carro, etc.

Vou falar nesse post sobre:

  1. Planejamento
  2. Validação
  3. Migração
  4. Organização

Qualquer dúvida ou sugestão que tiver, deixe nos comentários no final do post!

Passo 1: Planejamento

Antes de sair xingando o chefe e dando tchau pra galera, pare e pense o motivo pelo qual está querendo empreender. Empreender é dureza e você nunca está 100% preparado psicologicamente para não ter seu salário caindo na conta todo dia 5. Você já sabe em qual área vai empreender? O quanto pretende faturar? Onde será seu escritório?

Um bom planejamento envolve:

  1. ter economias no banco que você possa queimar enquanto seu negócio não dá certo;
  2. encerrar suas atividades na empresa atual dignamente, pois você pode precisar voltar para lá ou ter referências deles algum dia;
  3. reduzir todos os custos supérfluos que podem existir no seu orçamento doméstico, pois a grana vai encurtar;
  4. conversar com sua família da sua ideia de empreender, pois você vai precisar de apoio moral e provavelmente financeiro;
  5. conseguir um mentor mais experiente ou um sócio para te ajudar no negócio, pois você vai ter muitas dúvidas e é sempre bom ter alguém pra conversar sobre elas ou até pra dividir a carga da responsabilidade de ter uma empresa;
  6. botar todas tudo no Excel pra manter o controle;

O que eu faria diferente? Na época minha esposa também estava empreendendo. Dois empreendedores em casa é algo um tanto problemático financeiramente. O ideal é que se você é casado e quer empreender, converse com sua esposa para que ela continue com um emprego fixo, só por precaução.

Além disso, eu deveria ter me planejado com mais antecedência. Lancei minha startup em julho e saí da empresa em setembro. Só que alguns meses antes de lançar minha startup eu troquei de carro, o que me gerou uma conta pesada que não era realmente necessária.

Passo 2: Validação

Não largue tudo para depois descobrir se a sua ideia tem potencial. Crie um MVP dela primeiro e só depois dele estar provado pense em largar seu emprego. Criar MVPs como side projects do seu emprego atual é uma ótima oportunidade de aprender mais e dependendo do quão avançado você conseguir, até gerar uma renda extra durante o processo, como um lifestyle business.

A regra é clara: só saia do seu emprego fixo se o seu empreendimento estiver gerando grana. Eu mesmo segui essa regra, embora se fosse fazer isso de novo hoje, sairia quando ele estivesse gerando grana suficiente para pagar todas minhas contas, o que não foi o caso na época.

Uma boa validação envolve (praticamente o ciclo do Lean Startup aqui):

  1. criar um MVP;
  2. tentar vender o seu MVP e conseguir 5 vendas;
  3. se não der certo, melhore seu MVP até conseguir as 5 vendas;
  4. continue tentando vender enquanto os primeiros compradores usam ele e lhe dão feedback de como melhorá-lo;
  5. implemente as melhorias sugeridas e continue trabalhando com as vendas até que você ganhe o suficiente para pagar as suas contas ou até que isso comece a trabalhar o seu emprego atual. Em ambos os casos, ou você terá de sair do emprego ou encerrar seu projeto de empreender.

O que eu faria diferente? Só sairia do meu emprego após o meu MVP estivesse faturando no mínimo o que eu precisar para pagar todas minhas contas fixas mensais. Além disso, escolheria melhor as minhas métricas de sucesso, uma vez que eu perdia muito tempo com métricas de vaidade.

Passo 3: Migração

Se você conseguiu fazer seu MVP lhe gerar tanta grana que pague todas as suas contas, ótimo, mas não foi assim comigo. Eu passei por um processo em que fui me desvencilhando aos poucos do “chapéu” de empregado e assumindo o de empreendedor. Basicamente mesmo após cortar todos os meus custos fixos e variáveis supérfluos, o que reduziu meu orçamento doméstico mensal de R$2.700 para R$1.800, eu não faturava R$1.800 com meu MVP e tinha de completar essa renda de alguma forma, a menos que eu me desfizesse do meu carro, que custava R$690 de prestação à época. Mas eu não queria. 🙂

Algumas coisas foram fáceis de cortar como Netflix, celular pós-pago para pré-pago, shopping todo final de semana. Outras foram mais difíceis com o curso e Inglês, que eu tive de fazer permuta com o dono da escola para pagar o curso com freelas de desenvolvimento pra ele. Além disso, fiz muitos apps mobile.

Eu fiz migração de empregado para empreendedor da seguinte forma:

  1. primeiro, saí do meu emprego atual que era de 8h/dia;
  2. peguei um contrato PJ (eu abri um CNPJ na época) de 4h/dia durante 6 meses em uma empresa de um amigo meu. Nas demais 4h eu trabalhava na minha empresa;
  3. depois dos 6 meses de contrato, passei a pegar freelas em que trabalhava 2h por dia neles e as demais 6h em minha empresa (como apps Android);
  4. depois de mais uns 6 meses consegui investimento para minha startup e passei a me dedicar 8h por dia à ela, podendo trazer inclusive meus sócios para vir trabalhar full-time comigo pois tinha grana em caixa pra isso;

Obviamente falar que eu trabalhei apenas 8h por dia em meu negócio é mentira, eu trabalhava no mínimo umas 12h por dia. Só nos finais de semana que eu costumava trabalhar menos, aí sim, provavelmente umas 8h.

O que eu faria diferente? Meus sócios só saíram de seus empregos depois que não havia mais risco. Isso não foi certo, pois eles estavam agindo como empregados. Exija tanto comprometimento de seus sócios quanto você está comprometido.

Outra coisa que eu faria diferente é trabalhar à noite em um serviço para queimar menos grana da empresa. Eu comecei a fazer isso depois de um ano empreendendo, trabalhando como professor em uma faculdade após o expediente na minha empresa. Com isso minha grana aumentou e diminuiu bastante minhas preocupações com as contas.

Passo 4: Organização

Trabalhar por conta própria é ser livre. E ser livre é muita responsabilidade, afinal, ninguém vai te dizer o que precisa ser feito e muito menos vai te pagar todo mês por apenas “estar trabalhando”. Ou você descobre o que precisa ser feito, o que é mais importante, ou seu negócio não gera grana e você vai quebrar logo, logo.

Se organizar é uma etapa fundamental do processo de ser um empreendedor. Você precisa ter muita disciplina e muitas vezes terá de fazer coisas que não gosta para que sua empresa dê certo, simplesmente porque elas são importantes para o crescimento do negócio. Se não definir prioridades bem claras e não executar todas as tarefas importantes, não tem milagre, você vai quebrar.

Uma maneira de organizar o seu dia-a-dia como empreendedor é:

  1. comece seu dia definindo as prioridades para o mesmo. Liste as coisas que devem ser feitas em uma planilha e coloque a prioridade de cada uma. Para definir a prioridade, pense a respeito de quanta receita aquela tarefa irá gerar ou economizar. Para ajustar a prioridade, pense no quão urgente é essa tarefa, se algo é urgente e vai gerar grana, deve ser mais prioritário de algo que apenas gera grana.
  2. pegue duas tarefas do topo da lista, que são mais prioritárias e urgentes que todas. Execute essas duas tarefas logo na manhã, isso garante que seu dia foi produtivo.
  3. no decorrer do dia, execute as demais tarefas da lista não necessariamente na ordem de prioridade, mas conforme o seu bom senso, apenas priorizando emergências que possam aparecer.

Pode soar um pouco estranho, mas é isso mesmo. Aprendi com um coach essa técnica muito simples há muito tempo atrás, e nesse meu post sobre produtividade tem mais algumas dicas adicionais.

O que eu faria diferente? Me organizaria dessa maneira desde o primeiro dia. Demorei um bom tempo até aprender que não dá pra fazer tudo que você precisa fazer em um dia só e que se você não botar regras e limites para o quanto é saudável trabalhar na empresa, você enlouquece. Eu perdi vários kgs no primeiro ano de empresa até organizar meu trabalho, pois não tinha tempo nem de me alimentar.

O que achou das dicas? Tem algo a acrescentar? Deixe aí nos comentários!

Como quebrar duas startups em quatro anos

TDC Floripa 2017
TDC Floripa 2017

Durante o TDC Florianópolis 2017 eu fui convidado para palestrar na trilha de Startups. Eu fiquei um tempo imaginando o que eu poderia passar de útil para a audiência que não fosse o mesmo blá, blá, blá de sempre. Parei para pensar nos empreendimentos bem sucedidos, nas técnicas mirabolantes, nos growth hacks (odeio esse termo!) que já apliquei…E não me veio nada à mente que não fosse cópia de algo que já li em algum livro como Lean Startup e Business Model Generation.

É muito fácil, e confortável, falar apenas de nossos sucessos. O mercado está cheio de gurus que parecem onipotentes e que não fizeram nada de errado. Ninguém quer parecer “burro” ou “incompetente” de ter fundado startups que fracassaram. Daí cheguei a um impasse: o que eu, alguém que já vivenciou dois fracassos de startups em sua carreira poderia ensinar para quem está empreendendo ou pretende empreender.

Ora, o que não fazer, é claro!

A palestra chamou-se “Como quebrar duas startups em quatro anos” e em grande parte foi influenciada pelo meu post dos motivos pelos quais as startups não dão certo e obviamente, pelos fracassos que já tive. O conteúdo a seguir é o transcript da palestra e ao final deste post você encontra os slides da mesma.

Todos nós temos títulos profissionais, certo? Nos últimos 4 anos, se eu tenho um que se destacou mais que os demais foi o de “quebrador” sênior de startups. São mais de quatro anos de experiência na função e duas startups quebradas no currículo. E se você acha que foram pouca coisa, está enganado, foram ambas startups com investimento, ambas com times muito experientes, ambas com mercados bilionários, milhares de usuários utilizando os serviços, recebendo em dólar e muito mais.

Eu fui o fundador e CEO da primeira startup, o Busca Acelerada, fui o gerente de projeto da segunda startup, o Route, e atualmente sou evangelista de software em uma terceira startup chamada Umbler, servindo como contra-exemplo e um lembrete de que quebrar uma startup é mais fácil do que parece.

Mas como que eu consegui essa façanha?

É meio complicado de encontrar uma única causa, mas se eu explicar tudo o que aconteceu talvez você identifique as falhas por si mesmo. E se você está fazendo as mesmas coisas que eu estava, atenção!

A primeira vez a gente nunca esquece

Minha primeira startup foi o Busca Acelerada. O Busca Acelerada é um buscador vertical de classificados automotivos. Ele reúne os 80 maiores sites de classificados de carros, motos, náutica e caminhões através de uma única interface poderosa e simples de pesquisa (um mecanismo de busca), lhe trazendo mais de 1.8 milhões de anúncios mais rapidamente do que os próprios sites originais dos anúncios.

Eu tinha o perfil certo para fundar o Busca. Eu sou formado em Eletrônica, ou seja, sou “engenheiro” desde os 16 anos de idade, quando aprendi a programar sistemas embarcados. Sou bacharel em Ciência da Computação, o que me capacitou a construir as engenhocas tecnológicas mais mirabolantes para fazer o Busca funcionar. Sou pós-graduado em Computação Móvel também e programador há 11 anos (na época 7). Sou capaz de programar qualquer coisa que precisar para qualquer sistema em qualquer linguagem.

O Busca Acelerada ficou tão bem “programado” que em 2013 ganhamos o prêmio de Best Big Data Solution da SAP durante o SAP Startup Forum 2013, competição latino-americana de startups.

Eu não apenas sou um bom programador como me preocupei em aprender tudo o que podia sobre o universo de startups. Tenho duas certificações em métodos ágeis, fiz um curso de Lean Startup, sabia montar o canvas de modelo de negócio e conhecia todos os jargões do universo empreendedor como venture capital, pivot, tag along, drag along, series a-b-c, vesting, MVP, angel investment, elevator pitch…principalmente este último, eu era fera em pitches, conseguia “vender o meu peixe” pra todo mundo em qualquer evento.

O pitch do Busca Acelerada era tão bom que em 2013 ganhamos o prêmio do D18 – Desafio de Startups durante a passagem do Circuito Startup por Porto Alegre/RS, competição brasileira itinerante de startups.

E claro, não adiantava nada eu ser um bom programador e saber “tudo” de startups se não tivesse um bom time. Me certifiquei de me cercar com os melhores profissionais que conhecia, tanto de confiança quanto capazes tecnicamente. Era o Adriano, nosso UX Specialist; o Lucas, nosso CTO; o Fonseca, nosso Software Engineer e eu, o CEO (Chief Everything Officer): o que não era programar ou desenhar, era eu que fazia.

Estávamos começando a chamar a atenção da cena startup brasileira e nessa época fomos finalistas do Demo Brasil, primeira edição latino-americana do maior evento de startups do Vale do Silício.

Nosso crescimento de usuários estava vertiginoso e otimista. Nenhuma falha técnica. Marketing boca-a-boca e NPS perfeitos. Nada poderia nos parar, íamos dominar o mundo, ser o “Google dos carros”!

Nessa época estávamos pensando em expandir para fora do país. Já estávamos com todos os sites importantes de classificados no Brasil e o único jeito de continuar crescendo era expandir pros outros países da América Latina.

Em 2014 o Busca Acelerada foi considerado pelo Startup Ranking uma das 5 startups brasileiras que mais cresciam e fomos convidados a participar do Silicon Wasi Startup Wars, uma competição de startups no Peru, com representantes de diversos países latino-americanos.

Toda essa exposição em eventos nos ajudou a levantar investimento junto à WOW Aceleradora, aventura que contei nesse post, da qual fizemos parte da primeira turma de acelerados, nos garantindo capital para continuar tocando o projeto enquanto ele não dava dinheiro.

‘Peraí, não dava dinheiro? o.O

E as dezenas de concursos? As centenas de milhares de usuários? A base gigantesca de anúncios? Como que o Busca Acelerada ganhava dinheiro?

Não. Na verdade eu testei muitas hipóteses de modelos de negócio e nenhum deu mais do que alguns milhares de R$/mês. Não era algo ruim para um programador, mas péssimo para uma empresa. Eu tinha sócios que precisavam de pró-labore. Eu mesmo tinha contas para pagar. Tentei vender banners, vender tráfego, vender autopeças e pneus, cobrar por rankeamento, vender financiamentos e até vender o site inteiro, sem sucesso. Tudo dava pouco dinheiro, nada escalava, não havia luz no fim do túnel.

Aonde falhei? Acho que no MVP.

O MVP é o Minimum Viable Product, ou Produto Mínimo Viável. É a menor porção da sua startup que já mostre futuro como produto. Eu fiz tudo certo, criei em 15 dias um buscador de carros que reunia as 5 mil ofertas de carros da minha cidade, Gravataí/RS. Todo mundo amou, funcionou tecnicamente, o boca-a-boca estava lindo. Só não tinha um produto, era um “MVS”, um Minimum Viable Site. 🙂

Se o seu MVP não gera faturamento, não vende, não gera intenção de compra ao menos, não é um MVP. É um protótipo técnico, mas não um protótipo comercial. Olhando pra trás, eu jamais cometeria esse erro de levantar investimento apenas com hipóteses de produtos, sem ter um produto de verdade.

Pra ajudar, nós programadores costumamos ter uma visão errada da necessidade de vendedores e profissionais de marketing na empresa. Costumamos achar que vendedor e marketeiro é tudo pilantra, por que “produto bom se vende sozinho”, certo?

Errado. E descobri isso da pior maneira. Outro erro que não cometerei novamente é o de fundar outra startup apenas com sócios técnicos. O time deve ser multifuncional e completo para que uma empresa funcione, não para que um sistema seja desenvolvido.

Encurtando a história, o dinheiro acabou, meus sócios voltaram para seus empregos e eu fiquei um tempo tocando o Busca Acelerada sozinho, enquanto nosso contrato com os investidores da Wow exigia.

Depois desse fracasso, como diria Joseph Climber: “qualquer um ficaria chateado, desmotivado, sem vontade de cantar uma bela canção…”, mas não, eu empreendi de novo…

A segunda vez é ainda melhor!

Após quebrar minha primeira startup eu entrei em um sabático pra ajudar minha esposa a criar meu filho recém nascido nos primeiros meses de vida dele. Pra pagar as contas eu dava aulas na Faculdade de Tecnologia de Porto Alegre (FAQI) à noite e mantinha o site do Busca Acelerada funcionando pois ele me gerava um faturamento razoável (para uma pessoa).

Eis que um certo dia, meu ex-patrão Flávio, dono da RedeHost, me ligou para fazer um convite um tanto inusitado. Ele sabia que o Busca Acelerada havia quebrado pois tinha contratado dois de meus ex-sócios, o Lucas e o Adriano, para tocarem outros projetos com ele. O Lucas havia voltado pra RedeHost e o Adriano tinha entrado na startup Route que o Flávio havia fundado. O Route estava meio sem rumo pois ninguém na equipe tinha experiência com startups e na cabeça do Flávio alguém que quebrou uma empresa jamais quebraria uma segunda.

Confesso que isso passava pela minha cabeça também. O Chapolin sempre dizia: “você pode me derrubar uma vez, mas jamais me derrubará duas!”. Aceitei a proposta que era bem intere$$ante e voltei ao mercado em uma carreira mista de empreendedor/funcionário gerenciando o Route.

O Route era uma startup de marketing automation. Resumidamente nosso sistema rastreava todas as ações que os visitantes faziam no site de nossos clientes e depois permitia usar esses dados como inputs para campanhas de email e SMS marketing, entre outros recursos. Algo que me pareceu bem exótico, mas muito promissor, um mercado completamente novo para mim.

Bom, ‘missão dada é missão cumprida’ e ‘lá vamos nós’ de novo!

O Route não tinha uma equipe tão limitada em skills quanto a minha anterior. Tínhamos o Flávio, um CEO experiente com 15 anos de empreendedorismo bem sucedido nas costas. Três engenheiros de software que juntos tinham mais de 20 anos de experiência. Tínhamos a Ash e o Felipe que carregavam uma grande bagagem como profissionais de marketing, customer success (suporte chique de startup) e desenvolvedores de conteúdo, além de já terem trabalhado no exterior. Também tinha o Adriano, meu ex-sócio que também não tinha aprendido a lição da primeira vez e eu, com a missão de não deixar que a gente cometesse os mesmos erros.

E não deixei! Quebramos por motivos completamente diferentes! 🙂

O primeiro erro que não deixaria que cometêssemos era o de não ter um produto. Tínhamos planos mensais para usar nossos serviços e cobrados em dólares americanos, que todo mundo sabe que vale muito mais que dinheiro.

O segundo motivo pelo qual quebramos tão rapidamente no Busca Acelerada é que tínhamos pouco caixa para queimar. Aqui não existia esse problema, o Flávio além de CEO era investidor do projeto e bem, o cara é rico. 🙂 Tínhamos uma verba mensal de R$40 mil para gastar entre folha de pagamento, servidores da AWS, AdWords e outros serviços.

Assim como o Busca Acelerada, tínhamos muito usuários no Route, mais de 10 mil quando eu me juntei à equipe. Nesta startup não nos distraíamos com concursos de startups, pitchs, sair à procura de investidor ou ficar “querendo aparecer”, éramos tipo a casta da Abnegação da franquia Divergente.

Mas afinal, como que quebramos desta vez?

Na minha humilde opinião acho que uma das causas foi o beta. Quando entrei no Route ele estava há 3 anos no ar. Em beta. Um beta infinito que permitia a qualquer um se cadastrar e usar nossos serviços sem pagar por eles. Quanto mais usuários tínhamos, mais problemas isso nos gerava (suporte, comercial, bugs, novas features, etc) e mesmo assim o faturamento era inexistente, porque estávamos em beta.

Em muitas startups, beta significa não ter ‘bolas’ (como diria o comercial da Kayser) para cobrar por algo inacabado. Novamente, ter milhares de usuários que não pagam é o mesmo que não ter um produto, não ter feito um MVP corretamente. Mais tarde fiquei sabendo que a equipe ficou um ano desenvolvendo o MVP, o que é outra coisa inadmissível.

Independente destes fatores que eu não tive muita influência (foram anteriores à minha chegada), outro problema foi que tentamos abraçar o mundo desde o primeiro dia. Nosso mercado era todo mundo, no mundo inteiro. Em 2014 o mercado mundial de marketing automation estava em USD1.2B e pouquíssimos players dividiam esse número, queríamos ser mais um destes gigantes como Hubspot e Marketo.

No entanto, ao contrário dessas grandes empresas de marketing automation, ninguém na nossa equipe tinha experiência com isso. Havíamos entrado nessa apenas pelo dinheiro. Não “amávamos” marketing, automation ou sequer marketing automation. Estávamos de olho no “pote de ouro no final do arco-íris”. Como não tínhamos uma visão muito clara do porquê estávamos criando a ferramenta (afinal nem mesmo havíamos usado uma antes) tentávamos agradar todo mundo e acabamos virando uma startup “pato”: não voávamos direito, não nadávamos direito,  não cantávamos direito…uma ave meia-boca.

Jason Fried (Basecamp) no Getting Real diz: faça meio produto, não um produto meia-boca.

Em dado momento, depois de 1 ano e meio que eu estava na equipe, acabamos conseguindo alguma tração minúscula (menor do que a minha anterior com o Busca), identificamos algumas oportunidades de mercado bem interessantes para segmentar nossa ferramenta, mas o dinheiro havia acabado. Não literalmente, mas o Flávio, que era o fundador, CEO e investidor, não tinha mais interesse no projeto em virtude de outra empresa dele que estava crescendo bastante e que ele ia dedicar o seu tempo e dinheiro. A equipe foi reaproveitada em outros projetos dele, o Felipe acabou indo para outra empresa alguns meses depois e o Route já era.

Pois é, o Chapolin sempre diz que ninguém vai derrubar ele pela segunda vez, mas derrubam, não é mesmo?!

A terceira vez…

Como diria o ditado gaudério: “não tá morto quem peleia” e eu acabei sendo convidado para integrar a equipe da Umbler, uma empresa de hospedagem de sites diferenciada, com foco em agências e desenvolvedores, com um produto bem definido que possui faturamento crescente mês a mês desde os primeiros dias de vida.

Aparentemente essa já está madura o suficiente para que eu não seja capaz de “ajudar a quebrar”.

Minha intenção ao contar essas histórias não é para desmotivar ninguém. É para que não cometam os mesmos erros que eu cometi. Se eu vou empreender novamente, sim vou, mais cedo do que muitos imaginam para alguém que já falhou duas vezes. Por ora tenho me focado em lifestyle business, mas isso não é pra sempre, eu realmente gosto de criar negócios inovadores, mais até do que “gosto” de quebrá-los. 😛

Minha mensagem final é: o sucesso inspira. O fracasso ensina.

Pense nisso e não tenha medo de fracassar. Pois só quem tenta, fracassa. Só covardes são sempre bem sucedidos, pois não testam seus limites.

Um abraço.