Tendências em cultura e métodos de desenvolvimento para 2020 – Parte 4

Nesta quarta e última parte da minha série sobre as tendências em métodos e cultura de desenvolvimento de software para 2020 vamos explorar as duas últimas categorias de tendências segundo a pesquisa publicada pela InfoQ em março deste ano, cujo gráfico você confere abaixo.

Tendências em Cultura e Métodos 2020
Tendências em Cultura e Métodos 2020

Late Majority é, como o próprio nome diz, a maioria mais atrasada do mercado. Como bem apontado por G. Moore em Crossing the Chasm, não é apenas um crescimento comum de mercado sair do lado esquerdo da  Curva de Difusão da Inovação de E. Rogers para o lado direito. Existe um abismo que antecede a difusão de uma inovação de qualquer tipo para o grande mercado. Esse abismo se traduz como diferenças culturais gritantes entre os inovadores e os conservadores, se traduz no custo quando falamos de inovações em hardware e pode ser traduzido como também o “medo do novo”. Afinal, quem não lembra do medo de adotar métodos ágeis na primeira década deste século?

É importante ressaltar que, apesar de algumas tendências que você não conheça ou não pratique ainda estejam nesta última categoria, não as negligencie por elas não serem mais trendy. Scrum por exemplo, estar em Late Majority não indica que ele caiu em desuso, mas que sim, se tornou mainstream a ponto de estar sendo considerado como commodity em muitas empresas mais inovadoras e é uma tendência que acabara de chegar em empresas mais conservadoras.

Atenção: partes deste artigo são iguais a outros que escrevi em 2019, como esse para o blog da BossaBox e esse para o site Startupi, pois algumas das tendências ainda se mantém.

Algumas partes são citadas por mim também na palestra abaixo, onde passo superficialmente por vários itens.

Curso de Scrum e Métodos Ágeis

Late Majority, Antes tarde do que nunca…

E por fim, temos outra grande fatia do mercado que são a “maioria atrasada”. Você imagina descobrindo ou adotando hoje práticas e tecnologias dos anos 90? Pois é, estas empresas estão fazendo isso. Mas não julgue, não é uma questão de escolha, é uma forte pressão do mercado para que elas se modernizem.

Empresas que hoje, se recusem a entender a importância dos assuntos citados a seguir estão fadadas a caírem no ostracismo ou na categoria Laggards (retardatários), que a InfoQ nem mesmo perde tempo representando em seu gráfico. Apesar de estarem atrasadas, o fato de estarem olhando para estes assuntos já as põe em posição de se reinventarem, simbolizando uma luz no fim do túnel de negócios que possam estar estagnados e sofrendo com a forte concorrência.

Além disso, lembre-se que, todos estes assuntos já foram mega inovadores e são a base para entender o que veio depois deles. Pular etapas não é uma opção, na minha opinião, e se você ainda não domina eles, dificilmente conseguirá absorver os seus sucessores.

Scrum

O Scrum dispensa apresentações. Todas as pesquisas possíveis sobre métodos ágeis como a State of Agile e a State of Scrum mostram números gigantescos de adoção de Scrum nas empresas ao redor do mundo, superando 70% das empresas que dizem estar rodando algum método ágil.

Com isto, podemos dizer que o Scrum é o padrão de facto para desenvolvimento de software utilizando métodos ágeis e que toda empresa que estiver pensando em passar a desenvolver com agilidade deveria dar uma chance para este framework que já foi inovador e hoje se tornou mainstream.

Vanilla Agile

O termo Vanilla, na tecnologia, refere-se aos fundamentos de algo, fazendo uma alusão ao sabor de baunilha que é o mais genérico e básico possível dentre os sorvetes. Assim, Vanilla Agile refere-se à essência elementar da agilidade.

Aos poucos, mais e mais empresas estão descobrindo que ser ágil não é rodar Scrum. Estão descobrindo o Manifesto, descobrindo os princípios e incorporando um ou mais elementos no dia a dia.

O mais difícil, no entanto, tem sido elas não caírem em um GoHorse Gourmet como alguns estão chamando por aí. Ou seja, abrirem mão completamente de processos alegando que assim serão mais ágeis. Frameworks mais modernos como Modern Agile e Heart of Agile (este último criado por Cockburn, um dos signatários originais do Manifesto) tentam trazer um equilíbrio a essa nova situação que estamos vivendo, de descrença com algumas receitas e as armadilhas do Go Horse Gourmet.

Scaling Frameworks

Escalar métodos ágeis em grandes organizações é hoje uma arte que a todo custo estamos tentando transformar em ciência. Da adoção de agilidade pelo PMI à criação de grandes empresas em torno de frameworks como a Scaled Agile Inc, todos estão tentando resolver essa equação, de como escalar o ágil sem torná-lo outro waterfall.

Médias e grandes empresas que estão iniciando hoje suas transformações digitais tendem a assumir abordagens bimodais como a proposta do Gartner, enquanto outras tentam ir para o chamado “modelo Spotify” de escalar o ágil. Só o tempo dirá se teremos um vencedor ou se criaremos ainda outros modelos e receitas de escalar o ágil. O que não faltam hoje são opções além e SAFe e Spotify: Less, Scrum at Scale, Nexus, DAD, etc.

ALM Tools

ALM é uma sigla para Application Lifecycle Management ou Gestão do Ciclo de Vida de Aplicação. Do início dos anos 2000 para cá evoluiu-se muito em termos de ferramental para fazer a gestão das nossas aplicações. Com a popularização de arquiteturas mais modularizadas como microservices e nanoservices (serverless) e de tecnologias que elevaram essa modularização a um nível nunca visto antes, como Docker e Kubernetes, tivemos o surgimento de uma nova disciplina chamada DevOps, cada vez mais na boca dos profissionais de tecnologia de todas empresas.

Conceitos como Infra as a Code e Continuous Delivery não são mais “rocket science” e finalmente são objetivos alcançáveis a baixo custo. Absolutamente todas empresas que trabalham com software já ouviram falar disso e mesmo a categoria Late Majority deve investir pesado em pipelines e nuvem neste ano de 2020.

Cross-functional Teams

Agilidade é sobre times e quando se fala de times ágeis a primeira coisa que vem em mente é a pluralidade de habilidades. Times cross-funcionais ou multi-funcionais são aqueles que possuem todas as competências necessárias para entregar uma solução fim-a-fim (os chamados Feature Teams). É o contraponto à organização tradicional de times em silos, onde temos os especialistas de cada tecnologia ou camada de aplicação em cada silo, gerando extrema dependência de um time do outro e desacelerando a possibilidade de entregar valor em um lead time mais curto.

No famoso artigo de 1986 de Takeuchi e Nonaka, The New New Product Development Game, já se falava do poder que os times multi-funcionais estavam trazendo às empresas que adotavam esse modelo de trabalho à época. Não à toa que esse artigo inspirou o desenvolvimento do framework ágil Scrum, trazendo o conceito de time esportivo (rugby nesse caso) ao mundo do software, onde são necessárias diferentes habilidades em um mesmo time para conseguir vencer a partida. Já imaginou ter um time de futebol com 11 atacantes? Será que ele venceria todas partidas? E porque algumas empresas ainda insistem em ter times com apenas programadores de backend ou frontend? Ao menos a grande maioria já entendeu isso, segundo a pesquisa da InfoQ.

Justamente uma das principais competências trabalhadas na BossaBox é a construção de times multi-funcionais para atender às necessidades de desenvolvimento dos clientes, pois entende-se que esse é o caminho para a agilidade na entrega de valor.

E com essa quarta parte nós encerramos esta série sobre tendências em métodos e cultura de desenvolvimento de software para 2020. De forma alguma esta série cobriu tudo o que está acontecendo neste mundo de TI, e nem mesmo deu uma compreensão aprofundada de cada um dos tópicos apresentados. E a ideia nem era essa.

Se você terminou de ler com o sentimento de que tem muita coisa para aprender ainda, pois é, somos dois e estou muito feliz que eu não seja o único. Esse era meu objetivo principal: tirar você da incompetência inconsciente para a incompetência consciente. Agora com essa to-do list de coisas a estudar, espero que possa se antever às mudanças que estão chegando, além é claro de buscar o que pode ter deixado para trás por descuido.

Um abraço e até a próxima!

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Publicado por

Luiz Duarte

Pós-graduado em computação, professor, empreendedor, autor, Agile Coach e programador nas horas vagas.