Ano novo começando, um bom momento para retrospectiva, certo? Mas que tal uma retrospectiva técnica, com a visão de dev web3, de como foi o ano de 2025? A ideia aqui não é falar de acontecimentos, mas sim entender o mercado, as tecnologias e usar disso tudo para se preparar melhor para o novo ano, visando crescer mais na carreira como dev web3/blockchain ou em nossos negócios neste ecossistema.
Para não ficarmos em “achismos”, separei aqui três pesquisas de mercado muiti relevantes e confiáveis. Assim, quer você goste ou não da minha opinião, contra fatos não há argumentos, certo? A primeira pesquisa é a “Developer Report“, da Electric Capital, um fundo de investimento em startups web3. A segunda pesquisa é a “Solidity Developer Survey“, da SolidityLang.org, fundação mantenedora da linguagem Solidity. E embora você possa achar que a segunda pesquisa será tendenciosa a favor de Ethereum e Solidity, você verá que a primeira corrobora com os principais pontos, mostrando a idoneidade da mesma. A terceira e última pesquisa, que usarei mais ao final da retrospectiva, é a “Crypto Market Outlook“, da Coinbase.
Além disso, você irá reparar que a pesquisa da SolidityLang.org é de 2024, eles começam a pesquisa em dezembro e lançam os resultados em abril do ano seguinte. Assim, teremos uma visão de abril/25 e outra de dezembro/25, ok? Já a pesquisa da Coinbase tenta fazer algumas projeções para 2026 e anos seguintes, então na média todas elas se complementam.
Ao término deste artigo de retrospectiva, listarei onde pode estudar sobre os tópicos apresentados. Se preferir, você pode assistir ao vídeo abaixo, possui o mesmo conteúdo do artigo.
Vamos lá!
#1 – Metodologia e Demografia
Antes de entrar nos pormenores técnicos pode ser interessante darmos uma olhada na metodologia e demografia de ambas pesquisas.
A Electric Capital este ano mudou o seu formato: ao invés de um relatório anual, agora eles coletam 100% dos dados a partir de meio milhão de projetos open-source no GitHub e deixam tudo exposto o ano inteiro para você analisar. Já a SolidityLang tem uma pesquisa que eu mesmo respondo todos os anos e nessa última edição tiveram 684 respondentes, 50% a mais que no ano anterior. Não são números gigantes, mas também estamos falando de um mercado em early stage, são cerca de 31k usuários trabalhando ativamente em projetos web3 no GitHub (ao menos 1x por mês, 30% a mais que no ano anterior), logo esse volume representa uma parcela considerável dos desenvolvedores web3 existentes. Além disso, a Electric alega ter analisado 80MM de commits, é coisa pra caramba.
Neste ano quase tivemos uma mudança no panorama geral: EUA e Índia estão praticamente empatados em primeiro lugar como os país com mais devs web3 (~16% cada), com a Ásia em geral sendo o continente com mais devs web3 (a cada 3 devs web3, 1 está na Ásia). Ano passado a Índia foi o país que mais “formou” novos devs web3 e este ano repetiu o feito, com ~20% do total de novos builders contra ~11% do seu rival yankee. O Brasil infelizmente não figura entre o top 5 países com mais desenvolvedores, aparecendo em #8 na pesquisa da SolidityLang, mesmo sendo o quinto maior do mundo em tamanho e o sétimo em população, perdendo inclusive para a Nigeria.

Sobre empregabilidade, 66% dos devs Solidity estão empregados, destes, 71% trabalham com web3, enquanto que 14% estão apenas estudando no momento.
No caso da pesquisa da Coinbase, ela não é exatamente feita para desenvolvedores, é a menos técnica do ponto de vista de programação, focando mais no mercado mesmo, por isso falarei de alguns pontos dela mais ao final.

#2 – Redes e Ecossistemas
Se preferir, abordo esse tópico no vídeo abaixo também.

O ecossistema #1 segue sendo o EVM, com mais da metade do mercado (~56%), com as redes Ethereum, Base e Polygon em destaque. Isso faz com que a linguagem de smart contracts, Solidity siga sendo a mais importante. Não por coincidência, mas a Base é americana e a Polygon indiana, países líderes em devs web3. A EVM que já teve mais de 80% do mercado está enfrentando apuros para se manter sua liderança.
Em segundo lugar geral vem o ecossistema SVM com ~15% do mercado (ante ~8% do ano anterior), com a rede Solana, que foi o que mais cresceu em número de novos desenvolvedores este ano, muito impulsionada pela quantidade de novos desenvolvedores indianos. 2024 foi o primeiro ano desde 2016 que um ecossistema concorrente venceu a EVM em número de novos devs.

Outras redes dignas de serem mencionadas são Bitcoin, Cosmos e Arbitrum (estas duas últimas EVM), que empurraram pra baixo líderes como Polkadot e BNB Chain. Desta lista, vale lembrar que no caso do Bitcoin os devs costumam trabalhar em melhorias da rede mesmo e não em projetos web3, sendo mais de 42% dos projetos focados em aumentar a escala da rede, por exemplo.
A escolha pelo ecossistema da Ethereum é natural, não apenas por ele ser o primeiro como ser o que permite mais facilmente o desenvolvimento multi-chain com apenas uma linguagem de programação: Solidity. E multi-chain é muito comum: 1 a cada 3 desenvolvedores tem de trabalhar com mais de uma rede. E se você está pensando em trabalhar com EVM e Solana, você estará entre os ~9% de desenvolvedores que conhecem esses dois ecossistemas.
Um dos destaques inclusive do relatório da Coinbase é a proliferação de Application‑specific chains, ou seja, redes ultra-especializadas e com elas, o surgimento também de redes-de-redes, para permitir a interoperabilidade ao invés de silos isolados. Para quem for trabalhar mais próxima da infraestrutura blockchain, este é um tópico interessante a ser estudado.

#3 – Stacks e Linguagens
O uso de stacks e linguagens acaba sendo uma extensão dos resultados das redes, certo? A stack EVM por exemplo, com sua linguagem Solidity, possui quase 4x mais desenvolvedores que a segunda colocada, a stack SVM (Solana) com a linguagem Rust. Isso é ainda mais brutal na pesquisa da SolidityLang, onde temos quase 10x mais desenvolvedores Solidity do que Rust (42.4% x 4.4%). Como a referida pesquisa deixa mais aberto para o respondente colocar a linguagem de programação que mais usa, também temos JS e TS em destaque, em virtude da sua onipresença na web3 em geral (afinal, envolve muito frontend). Então se você sabe Solidity + JS/TS, você conseguiria trabalhar com ~79% dos devs que responderam à pesquisa.

Aprenda o básico de Solidity hoje mesmo neste vídeo abaixo.

Quando entramos no campo de ferramentas, temos o uso esmagador do VS Code como principal ferramenta entre os devs que trabalham com Solidity, com 90%! Em conjunto com o VS Code, as extensões mais populares são a Solidity da Nomic Foundation (mantenedores do HardHat), a Solidity do Juan Blanco (concorrente da primeira) e a Solidity Auditor Visual.

Que tal vermos os toolkits mais usados para ecossistema Ethereum? Se você acompanha essas pesquisas como eu, há alguns anos, deve lembrar que já tivemos Truffle no topo (hoje descontinuado), depois HardHat no topo (meu favorito), até que apareceu o Foundry e encostou nele em 2024. Agora em 2025 o Foundry assumiu a liderança com folga. Essa mudança até fez com a HardHat, em sua versão 3 lançada este ano, incorporasse o forge-std, componente do Foundry, para suportar testes em Solidity também e core escrito em Rust, mesma tecnologia do seu concorrente.

Minha escolha pelo HardHat ainda tem tudo a ver com o gráfico de linguagens: se você já sabe JS/TS, usar o HardHat é uma transição mais amigável da web2 para web3, embora uma abordagem 100% Solidity (se você trabalha apenas com smart contracts) também não seja algo a se dispensar. E sim, JS e TS continuam dominantes não apenas em web3, mas em desenvolvimento no geral, como mostrou a última pesquisa do GitHub. Então se quer trabalhar fullstack na web3, JS e TS não podem faltar no seu currículo.

E querendo aprender HardHat, esse aulão aqui vai te ajudar.

#4 – Destaques
Para encerrar, vamos falar de alguns tópicos de destaque deste ano e que devem ficar no seu radar para 2026.
Em outubro deste ano tivemos o tradicional Uptober de fim de alta, com o ATH (All-Time High ou Máxima Histórica) em U$126.080. Historicamente falando, com isso o mercado ensaia o início de um novo inverno cripto ou bear market o que tende a diminuir a euforia com projetos web3 e captação de novos investimentos. Via de regra, isso diminui a grana e as vagas nesse mercado, menos que você saiba onde procurar ou o que vender…Além disso, com a grande adoção institucional de cripto e os ETFs batendo recordes, a dinâmica deste inverno pode ser diferente dos demais.
Tokenomics 2.0: Foi-se o tempo em que bastava lançar um token, com no máximo um whitepaper raso e se levantava milhões. O mercado está mais exigente e os protocolos buscam a construção de modelos de negócio cripto mais sustentáveis enquanto que os usuários buscam relações de ganha-ganha. Clareza nessas políticas são a chave aqui principalmente para quem for empreender na área, não há mais espaço apenas para narrativas. Falamos sobre isso esse ano no corte abaixo.

Demanda por Privacidade: a técnica-chave aqui é Zero Knowledge Proof ou Prova de Conhecimento Zero. Esta técnica que permite a validação de dados sensíveis sem expô-los na blockchain foi um dos grandes destaques dos dois últimos anos, tendo em vista o crescimento da blockchain em setores que possuem muitos dados do tipo, como governos. A demanda por zkProof aumentou cerca de 16x nos últimos 4 anos, sendo que atualmente temos pouco mais de 800 devs web3 trabalhando ativamente em projetos do tipo no GitHub. As redes mais usadas para zkProof são Starknet, Polygon zkEVM, ZKSync, Linea e Scroll.
Aliás, foi justamente esse demanda por privacidade que “minou” a ideia do DREX (o Real tokenizado) de usar a HyperLedger Besu, que se mostrou inviável tecnicamente dados os requisitos. O projeto no momento voltou alguns passos para trás e vai iniciar a escolha e testes de novas tecnologias, tendo abandonado ao menos momentaneamente a ideia de usar DLT (blockchain permissionada) o que jogou um balde de água fria no mercado de trabalho web3 BR.
AI × Crypto: que estamos vivendo a era da IA isso ninguém tem dúvida. E mesmo que você, assim como eu, ache que tem muito marketing inflado, o fato é que tem muito mais dinheiro nesse novo mercado do que nos demais no momento. Então ao invés de ser AI x Crypto, que tal juntar as duas coisas e fazer AI + Cripto no currículo? E não sou eu que estou dizendo, esse é um dos tópicos de destaque do relatório da Coinbase esse ano, citando a demanda por agentes de IA para o mercado cripto para transacionar automaticamente, programação de pagamentos, governança de serviços onchain e mais.
Falei sobre construção de agentes no vídeo abaixo.

Tokenização: enquanto que muito dev web3 BR ficou triste com as decisões recentes do projeto do DREX, a tokenização segue firme e forte no mundo inteiro e inclusive no Brasil, em especial a tokenização de ativos do mundo real (RWA ou Real World Assets), principalmente de equities tokenizados, derivativos cripto e outros. Ano passado o mercado cresceu 60%, para $13.5B. Expectativas pessimistas falam de uma expansão pra $2T nos próximos 5 anos, já que instituições financeiras como BlackRock e Franklin Templeton já aderiram, principalmente para uso como colaterais em transações de derivativos. O maior desafio: as regulamentações, então fique de olho nelas.
Mercados Preditivos: enquanto no Brasil esse foi o ano das bets ou casas de apostas, no mundo web3 foi o ano dos mercados preditivos. Com o crescimento rápido do mercado ele tem se tornado fragmentado conforme novos players entram, o que abre oportunidade para agregadores em 2026.

Stablecoins: quem acompanhou as notícias do ano confirma este apontamento do relatório da Coinbase: stablecoins se tornaram o principal usecase da web3 neste ano de 2025. Grandes bancos, empresas e até governos tem ou estão trabalhando para ter stablecoins (CBDCs no caso dos governos). A previsão é que o mercado de stablecoins atinja cerca de $1.2T até 2028, principalmente para uso em transações internacionais, folhas de pagamento e outros.

#5 – Conclusões e Referências
Obviamente cada pessoa pode tirar suas próprias conclusões técnicas sobre estes dados dos três relatórios, mas quero apresentar algumas conclusões minhas baseado no que vi ao longo do ano e que espero para 2026. Primeiramente, sigo firme na minha convicção de que começar e se especializar na stack EVM antes de qualquer outra segue sendo a melhor estratégia. Aprender Solidity para smart contracts, por exemplo, segue sendo a melhor escolha, com dois toolkits à sua escolha: HardHat e Foundry.
Recomendo fortemente também uma abordagem mais generalista/fullstack, usando JS e TS no frontend dos projetos web3, isso abre muito mais oportunidades de vagas principalmente em um ano mais fraco que devemos ter em virtude do bear market.
Após obter um bom conhecimento em EVM/Solidity você tem de aprender ao menos o básico de SVM/Rust. É inegável o crescimento absurdo da Solana nos últimos anos principalmente em virtude da sua velocidade e taxas. Repito: ainda acredito que começar por EVM/Solidity seja o melhor, mas pegue o básico de SVM/Rust assim que puder.
Sobre setores, para empreender o céu é o limite, mas para trabalhar como dev empregado, no BR os setores com maior potencial são as corretoras com escritório no Brasil e tokenizadoras, ficando de olho no mercado HyperLedger que apesar da pausa no DREX, ainda conta com outros projetos governamentais importantes usando. Agora falando de mundo, Stablecoins e IA + Cripto estão explodindo em oportunidades, acredito que este segundo superando o primeiro em 2026, então bora aprender um pouco de programação para IA também, vou falar mais disso no site e no canal.
E se você quer aprender programação para blockchain e web3, já sabe né, tem meu blog, meu canal, meu livro e meus cursos, segue abaixo.
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