Agile além do desenvolvimento de software

Recentemente escrevi um artigo falando da essência dos métodos ágeis. A ideia era dar uma visão da origem da agilidade e mostrar que ela não nasceu no software e até mesmo provocar um pensamento mais amplo sobre a mesma, uma vez que métodos ágeis são facilmente aplicáveis em outras áreas que não apenas ao desenvolvimento de software.

No artigo de hoje, trago alguns cases de aplicação de métodos e princípios ágeis nas mais variadas indústrias e até mesmo em casa! A ideia é desmistificar de uma vez por todas de que isso só se aplica a times de desenvolvimento. Enquanto que não me estendo em nenhum deles, todos estão recheados de referências em links ao longo dos trechos, para que se aprofunde no tópico que mais lhe interessar.

Marketing Ágil

Você já ouviu falar de Agile Marketing? O Agile Marketing tomou corpo através de um manifesto criado por diversos profissionais da área que buscavam adaptar o modelo de gestão de times comerciais ao novo cenário.

Os valores definidos pelo Manifesto são:

  1. Aprendizado validado na prática acima de opiniões e convenções;
  2. Colaboração focada em entrega de valor para os clientes ao invés de criação de silos e hierarquia;
  3. Campanhas interativas, adaptativas e não estelares/complexas;
  4. Validação e contato direto com o consumidor ao invés de predição sobre preferências e comportamentos;
  5. Planejamento flexível ao invés de rígido
  6. Responder às mudanças mais que seguir um plano
  7. Vários pequenos experimentos perante poucas grandes apostas

Não são conceitos complexos de se entender, mas adaptar sua cultura e os processos é que se tornam um desafio diário. Principalmente se consideramos o cenário geral do mercado quando se trata de Marketing e Publicidade. No entanto, temos profissionais que são referências em Marketing Digital, como Sean Ellis, o mesmo que cunhou o termo Growth Hacking, defendendo ferozmente a aplicação do Agile Marketing como diferencial para alcançar resultados em um mercado tão competitivo.

Olhando para os 7 valores do Agile Marketing Manifesto, nós conseguimos entender que a grande maioria deles procura adaptar os processos de Marketing à maneira de trabalhar das novas gerações e, principalmente, novas tecnologias existentes. Não é plausível manter um sistema de gerenciamento engessado, hierárquico, baseado meramente em criatividade quando se possui mais do que um punhado de opções mais viáveis, mensuráveis e flexíveis à sua disposição.

Faz completo sentido, então, se adaptar ao que o mercado pede e alterar sua cultura e hierarquia para melhorar os resultados, como as startups começaram a fazer e, hoje, as grandes empresas procuram conseguir também.

No site Outbound Marketing eles dão algumas dicas de como implementar um kanban em um time de marketing (embora usar Scrum também possa ser interessante). Já o site Marketing de Conteúdo faz uma análise dos 12 princípios ágeis originais com o foco no marketing, ajudando a traduzir as ideias dos signatários do Agile Manifesto para o mundo do marketing. No blog da Resultados Digitais você encontra algumas dicas também de como agilizar o seu time de marketing, enquanto que a McKinsey escreveu um artigo enorme como um passo a passo de como implementar o Agile Marketing.

Na Umbler, empresa que eu trabalhei antes de virar Agile Coach no Agibank, o setor de marketing usava métodos ágeis, conforme uma das lideranças do setor relata neste guest post no blog do Trello. E se você está curioso em saber se isso é uma moda passageira ou se é um movimento global, dê uma olhada neste estudo de 2016.

Agile Selling
Agile Selling

Comercial Ágil

Falamos bastante de Agile Marketing até o momento, mas e Agile Selling, já ouviu falar?

Esse termo foi cunhado pela autora Jill Konrath no seu livro homônimo, disponível à venda na Amazon. Após ver que tudo aquilo que ela sabia sobre vendas não funcionava mais e depois de perder alguns clientes e passar por algumas situações difíceis (pressão de todos os lados, dúvida, baixa autoconfiança, etc), ela percebe que existem dois caminhos: desistir e aceitar a derrota ou aprender a lição e achar uma resposta.

Felizmente, ela acabou seguindo o último caminho.

Esse Agile no título do texto, segundo a autora, significa, adivinhe só: ligeiro, rápido. Ser capaz de mudar rapidamente e se adaptar às novas condições de mercado.

Entender o que está acontecendo, quais são as mudanças que o mercado está sofrendo e aprender a responder rapidamente. Mas é claro que esse é um processo iterativo e você precisa aprender a priorizar o que aprender primeiro. Isso é ser ágil!

O site Outbound Marketing tem um artigo interessante que resume em linhas gerais os ensinamentos do livro, que a autora organizou em 6 estratégias para conseguir reagir às mudanças de mercado rapidamente

RH Ágil

Nossa próxima parada é no RH. Já ouviu falar de Agile HR (Human Resources)? Sim, os métodos ágeis agora estão transformando como as organizações contratam, desenvolvem e gerenciam pessoas, como bem explicado neste artigo de Harvard. Uma vez que o RH toca cada aspecto – e cada empregado – de uma organização, uma transformação ágil neste departamento pode ser bem mais trabalhosa do que em outros.

Foi-se o tempo em que o RH apenas tinha de entender como os times ágeis funcionavam e ajudar a criar uma interface de tradução de como os times praticavam versus como a empresa lidava com eles. Incorporando princípios e práticas ágeis ao RH chegou-se inclusive a se desenhar um manifesto ágil do RH, em analogia ao Agile Manifesto original da TI, o qual reproduzo a imagem abaixo.

Manifesto Ágil RH
Manifesto Ágil RH

Umas das mudanças do Agile HR, por exemplo, é nas análises de performance. Originalmente anuais, vindas de um único gestor, perdem o seu sentido uma vez que os times mudam com maior frequência, possuem servo-líderes e em ciclos bem menores que um ano. Feedback contínuo permite melhoria contínua dos profissionais e é algo que um RH ágil deve buscar.

Outra disciplina que ganha destaque neste contexto é o coaching. As empresas que tem conseguido maior sucesso em práticas ágeis de RH como Cigna, Regeneron, Johnson & Johnson, Gap, Pfizer, GE e IBM têm investido pesado em seus gestores para eles se tornarem mais coaches e menos “chefes”. A Digital Ocean inclusive tem coaches dedicados a ajudar os gestores no dia a dia.

Outra mudança é o foco nos times além do foco individual tradicional dos RHs. Feedback multidirecional é uma prática, onde os integrantes do time ajudam a avaliar seus pares e principalmente o feedback 360 onde os liderados avaliam também os seus gestores.

Fornecer mais autonomia aos times, um sistema de compensação mais flexível e variável, em ciclos curtos, são alguns dos desafios deste RH ágil. A IBM por exemplo, usa um sistema de inteligência artificial para ajudar seus funcionários a desenvolverem novas habilidades, mapeando seus perfis, gaps de conhecimento e sugerindo cursos na plataforma de conhecimento deles ou gerando demandas para educação corporativa.

Como um excelente artigo da Forbes relata, o Agile HR deve se tornar um Agile Business Partner, realmente apoiando o negócio e deixando de agir apenas como um moderador ou como um executor (modelo mais antigo ainda). A tabela abaixo, retirada do referido artigo ilustra as diferenças de atuação do RH, sendo que o que buscamos em um RH ágil é a terceira coluna.

Agile Business Partner
Agile Business Partner

No livro The Age of Agile (à venda na Amazon) Stephen Denning trata mais sobre como organizações têm se transformado usando o agile mindset, principalmente através de uma transformação em seus departamentos de gestão de pessoas.

Escola Ágil

A primeira vez que ouvi falar do EduScrum foi no livro best-seller do Jeff Sutherland (um dos criadores do Scrum) Scrum: A Arte de Fazer o Dobro do Trabalho na Metade do Tempo (à venda na Amazon), o famoso livro amarelo do Scrum. Ele seria um framework adaptado do Scrum e do Kanban para uso em sala de aula.

Neste artigo do Rodrigo Zambon ele fala do futuro da educação e como escolas no RS tem usado o EduScrum em sala de aula par aumentar o engajamento dos alunos e incentivar o trabalho em equipe. Nestes ambientes, cada aluno pode contribuir com algo nos times em que participa e o professor atua como um Scrum Master da turma, fazendo coaching com os alunos e ajudando-os a avançar através dos desafios. Quem acompanha meu blog há um tempo já deve ter lido meu principal artigo sobre educação intitulado Por que Stanford trocou Java por JavaScript e sabe que eu apoio este tipo de iniciativa para modernizar o ensino.

O EduScrum é um movimento que nasceu na Holanda (posteriormente revisado pelo Jeff) e no manual oficial e gratuito você encontra um framework semelhante ao Scrum original, onde temos os papéis de Student Teams, EduScrum Master e Product Owner. Temos as mesmas cerimônias e praticamente os mesmos artefatos, com a oficialização do Scrum Board, um artefato derivado do Kanban. Qualquer pessoa minimamente familiarizada com o Scrum vai entender rapidamente e sair aplicando o EduScrum em turmas de qualquer curso ou nível.

Família Ágil

E para encerrar este artigo vou trazer um uso um tanto inusitado de métodos ágeis: na sua própria família. Sim, isso mesmo que você leu: já parou pra pensar como o uso de métodos ágeis pode ajudar na organização doméstica? Pensando nisso que o agile coach autor do Scrum 4 Kids iniciou um experimento com sua família, rendendo excelentes aprendizados e um case muito interessante.

E se você pensou apenas em um board de atividades, saiba que ele foi muito além, aplicando Scrum mesmo e não apenas kanban, que seria a prática mais óbvia. No blog do autor você encontra fotos realmente interessantes de dailys com os filhos do casal, boards de atividades domésticas de sábado e muito mais.

E se esse último exemplo não é a prova cabal de que os métodos ágeis podem ser utilizados em qualquer contexto, eu não sei mais o que escrever para lhe convencer disso. 🙂

Gostou do assunto? Quer aprender mais sobre métodos ágeis? Conheça meu livro Scrum e Métodos Ágeis clicando no banner abaixo!

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